Sua conscientização política

"Seria uma época de guerras cruéis em que novos césares surgiriam e em que uma elite de homens de aço, que não buscavam ganhos pessoais e felicidade, mas o cumprimento dos deveres para com a comunidade, tomaria o lugar dos democratas e dos humanitários" Hajo Holborn, explicando uma previsão de Oswald Spengler em A History of Modern Germany: 1840-1945; Princeton University Press, 1982. Página 658

domingo, 15 de janeiro de 2017

{Falsificação bíblica} Êxodo recorrente: Identidade judaica e Formação da História - Por Andrew Joyce




07/01/2017

            Eu tenho estado intrigado pela história do Êxodo israelense do Egito por mais de uma década. Mais que qualquer de seus rivais mais próximos, incluindo o conto de Hamã no Livro de Ester, o Êxodo avulta-se grandemente como um primitivo e extremamente influente marco psicológico na lacrimosa e altamente duvidosa pseudo-história do povo judeu. Bem obviamente, a putativa liberação do Egito é comemorada pelo judaísmo todo ano, na forma da Pessach, ou festival da Páscoa. Na verdade, este festival é uma das mais importantes marcas do calendário religioso judaico. O historiador Paul Johnson observa que o Êxodo “tornou-se uma memória esmagadora” e “gradualmente substituiu a criação própria como o evento central, determinante, na história judaica.”[1]

            O Êxodo tem um poder que existe independentemente das armadilhas do mito religioso, atuando através dos séculos como uma narrativa definidora da vitimização, reivindicação de grupo, e auto-validação. Os judeus vivendo sob o Czar produziram intermináveis peças e sátiras yiddish contendo alusões cruamente escondidas ao Czar como a última encarnação do faraó[2]. O Êxodo é uma fundação sobre a qual a identidade judaica, bem como a religiosidade judaica, é construída, e por esta razão ele tem preocupado grandemente mesmo os mais ateus dos judeus, Karl Marx e Sigmund Freud entre eles. Moisés, como arquétipo subconsciente, agacha-se nas sombras da psique judaica.

            A recepção inicial do Êxodo pelos não-judeus também desempenha um importante papel na concepção de mundo judaica, no sentido que o “vírus” do “antissemitismo” é dito ter originado em resposta a ele. A esse respeito, existe um quase universal consenso entre os judeus intelectuais que as primitivas origens do “antissemitismo” podem ser traçadas aos escritos de um sacerdote egípcio supostamente ofendido pelo relato da fuga israelita do Faraó. A teoria relaciona-se especificamente à história do Egito, a Aegyptiaca, escrita pelo sacerdote egípcio chamado Mâneton ao redor de século terceiro a.C. Embora a Aegyptiaca está perdida para nós, somos capazes de reunir muito de seu conteúdo baseado em réplicas subsequentes por escritores judeus posteriores tais como Flávio Josefo, e também referências do texto por vários intelectuais gregos e greco-egípcios.

            Em resumo, Mâneton relatou que séculos antes uma população estrangeira tinha entrado na fronteira leste do Egito através da “infiltração do Delta”. Esta população estrangeira subsequentemente subiu no poder dentro do Egito, tornando-se um fardo e uma pestilência para os nativos. Em algum momento, a população estrangeira desenvolveu uma série doença de pele, e os egípcios estavam finalmente motivados a expulsar os invasores, que posteriormente foram realocados para Jerusalém.

O historiador judeu Fávio Josefo
            A narrativa de Mâneton certamente provocou alguns dos primeiros exemplos de apologia judaica. Seu relato filtrou-se através dos tempos e foi retomado pelo egípcio helenizado Apião o alexandrino (30 – 20 a.C. –  aproximadamente 45 – 48 d.C.), e por sua vez provocando um polêmico texto do historiador judeu Flávio Josefo (37 d.C. – aproximadamente 100 d.C) intitulado simplesmente Contra Apião. Neste texto, Josefo comentou desdenhosamente que “Sob o pretexto de registrar fábulas e relatos atuais sobre os judeus, ele [Mâneton] tomou a liberdade de introduzir algumas incríveis histórias, desejando representar nós como... condenados ao banimento do Egito.” É interessante que Josefo estava mais preocupado em rejeitar a acusação que os judeus tinham uma aflição de pele, e estava muito preparado para aceitar que a hostilidade egípcia era baseada no “agravo original de dominação de nossos ancestrais [judeus] sobre o país deles.”

Hoje, historiadores são quase unânimes que Mâneton foi um criador malicioso de calúnias anti-judaicas. A filosemita A History of the Jews de Paul Johnson é um bom exemplo neste respeito, embora seu tratamento da antiga história judaica é cheio de contradições. Por exemplo, Johnson reconhece que as populações proto-judaicas eram altamente problemáticas para as autoridades egípcias. Referindo-se as Cartas Amarna (datadas de 1389 – 1358 a.C.), Johnson concede que os relatos dos antigos egípcios referem-se a um hebreu chamado Labaya ou Homem Leão que “causou grandes dificuldades para as autoridades egípcias e os aliados delas... [Ele] era difícil de controlar, um estorvo. Ele finalmente encontrou uma morte violenta no reino do faraó Akhenaton.”[3]

            Johnson acrescenta ainda que a somente parte da nação hebraica tinha vivido no Egito, “uma quinta coluna dentro da terra” que desempenhou uma crucial parte nas estratégias geo-políticas mais ampla do grupo[4]. Mesmo deixando de lado os elementos supernaturais inerentes do conto do Êxodo, Johnson também parece ceder à improbabilidade de uma partida instigada pelos judeus uma desde que isso representaria “uma bem sucedida revolta e fuga de um povo escravo, o único registrado na antiguidade.”[5] Apesar destes reconhecimentos, Johnson descreve o relato de Mâneton da expulsão do infiltrados proto-judeus para fora do Egito e para Jerusalém como uma “matriz fundamental do antissemitismo, o Ur-Libelo {Ur é uma expressão germânica para original ou primitivo}”[6].

            O ativista acadêmico judeu Robert Wistrich, agora falecido, descreve Mâneton como “malevolente” e “um dos primeiros polemistas antissemitas da antiguidade.”[7] Kenneth Roseman argumenta que Mâneton “disseminou virulenta propaganda antissemita.”[8] Ernst Abel chamou o padre egípcio “pai da literatura antissemita.”[9] Uma edição especial de 1985 do Jewish Social Studies rotulou Mâneton “o primeiro expoente literário da tendência anti-judaica no mundo greco-romano egípcio e o homem que foi instrumental na criação, ou no mínimo em popularizar, alguns dos motivos recorrentes de antissemitismo.”[10]

            A fim de explicar porquê Mâneton possa ter construído seu “Ur-libelo”, Wistrich se referiu a uma mais vasta atmosfera em Alexandria na qual os judeus estavam em “competição sócio-política com os egípcios helenizados.”[11] Em meio desta competulçaim judeus passaram a ser vistos como exclusivistas, não patrióticos, possuindo duas lealdades, e possuindo uma “posição de privilégio, riqueza e poder.”[12]

            Estas acusações foram tratadas com a mais duradoura articulação pelos principais intelectuais da época, incluindo Apião, Lisímaco, Queremão, que atuou como um dos instrutores de Nero[13]. A antipatia frente aos judeus era tão abundante que mesmo após a conquista da Judéia, ambos Tito e Vespasiano iriam recusar a adotar o título honorário “judaico”.

            Mâneton foi assim, pelo consenso acadêmico moderno, meramente o primeiro a registrar os primeiros resmungos ciumentos, de uma civilização não-judaica.

            Enquanto os agravos não-judaicos durante este período são vistos pelos guardiões acadêmicos com grande ceticismo e alarme, o auto engrandecimento judaico da mesma era é aceito sem contestação. Assim como Mâneton é dito ter feito empréstimos do Êxodo para sua Aegyptiaca, assim todo escritor helenístico foi alegado ter meramente enxertado ideias a partir de um judaísmo superior intelectualmente. Ao contrário, em meu próprio parecer abrangendo tudo, os judeus não interagiram com a cultura grega em Alexandria  em qualquer outra maneira que não fosse a cooptação das realizações dela.

            Este é, naturalmente, o fenômeno atemporal do chauvinismo cultural judaico, construído sobre a reescrita da história. O ativista acadêmico Simon Schama escreve que, em Alexandria, muitos escritores e filósofos judeus argumentaram que o judaísmo “foi a antiga raiz e o helenismo a jovem árvore. Zeus foi apenas uma versão paganizada do Todo-Poderoso YHWH, e Moisés foi o legislador definitivo de quem todos os estabelecedores e lei e ética tinham surgido. O judeu Aristóbolo de Paneas, escrevendo em meio do segundo século a.C. quis que seus leitores acreditassem que Platão tinha estudado minunciosamente a Torá e que Pitágoras possuía seu teorema dos antigos ensinamentos judaicos.”[14] Esta é a antiga raiz do familiar impulso para perpetuar a ideia do “gênio judeu,” um tema agora vem documentado em The Occidental Observer (por exemplo, meu “Pariah to Messiah: The Engineered Apotheosis of Baruch Spinoza” para uma discussão de como os intelectuais judeus têm reescrito a história do Iluminismo para ser o resultado da influência judaica).

O historiador Russell Gmirkin
            Embora as narrativas contérminas com a fábula do Êxodo permaneçam envaidecidas e inertes dentro do corpus acadêmico, eu desejaria chamar a atenção dos leitores para um livro bastante notável publicado em 2006. Largamente ignorado pelos guardiões da acadêmica, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch de Russell Gmirkin  representa nada menos que um ataque em múltiplas frentes em ambas interpretação judaica de Mâneton e o próprio relato do Êxodo. O estudo de Gmirkin oferece evidências convincentes que Mâneton não reagiu ao Êxodo, mas, ao invés, o Êxodo foi escrito por intelectuais judeus em Alexandria em reação à Mâneton, cujo relato era mais antigo e mais preciso. Ou, conforme o autor coloca, ao invés de Mâneton atacar os judeus, “o empréstimo e polêmicas ocorreu em direção oposta; o Pentateuco polemizou contra as histórias de expulsão egípcias em Mâneton.”[15] A implicação da tese de Gmirkin é que, ao escrever o Êxodo, um texto, mais tarde, dado à proteção cultural e maior credibilidade e autoridade pela difusão do cristianismo, os judeus essencialmente capturaram a história, reescrevendo-a em uma maneira que salvou o orgulho judaico.

            Embora o que nós entendemos como a estratégia evolucionário do grupo judaico, e os códigos culturais que a sustentam, certamente existiram anteriormente ao terceiro século a.C., Gmirkin argumenta que o “Pentateuco hebreu foi composto em sua totalidade ao redor de 273 a.C. por 72 estudiosos judeus em Alexandria.”[16] Combinando descobertas arqueológicas com meticulosas análises textuais, Gmirkin demonstra um dependência pesada do Gênesis em relação à Babyloniaca de Beroso (278 a.C.) e do Êxodo em relação ao Aegyptiaca de Mâneton (aproximadamente 285 – 280 a.C.), bem como uma geral dependência geral do Êxodo em relação as fontes literárias disponíveis na Grande Biblioteca de Alexandria. Contrário às alegações que Mâneton engajou-se em polêmicas contra os judeus como uma resposta ao Êxodo, Gmirkin aponta que sua narrativa não menciona não menciona os judeus pelo nome, referindo-se, ao invés, a uma tribo origem étnica mista conhecida como Hicsos (nome egípcio para ‘governantes dos países estrangeiras’). Além do mais, o relato de Mâneton “não mostra nenhuma consciência do relato bíblico,” e “pode ser demonstrado ter sido redigido exclusivamente sobre fontes nativas egípcias.”[17]

            Substanciais elementos do Êxodo parecem ter sido plagiados ou corrompidos a partir da Aegyptiaca. Gmirkin escreve que:
A história do Êxodo, entrementes, mostra um considerável conhecimento dos relatos de Mâneton em relação aos Hicsos e egípcios expulsos, mostrando um sistemático acordo com Mâneton em todos os detalhes favoráveis ou neutro aos judeus mas contém polêmicas precisamente naqueles pontos em Mâneton que refletiam desfavoravelmente aos judeus[18].
            Gmirkin destaca fatos cruciais os quais trazem a indagação de como o mito de “Mâneton como antissemita” veio a ser dominante por tanto tempo, mesmo levando em consideração que a marcha do cristianismo protegeu o Êxodo da crítica por séculos. O mais contundente é o fato que “Mâneton pré-datou a Septuaginta, a primeira tradução grega dos escritos judaicos. Esta consideração cronológica somente exclui a possibilidade da influência da história do Êxodo judaico sobre o relato de Mâneton sobre os hicsos.”[19] O conhecimento explícito dos judeus em Mâneton é “realmente muito limitado.”[20] A real ligação entre os judeus de Alexandria e o relato de Mâneton parece ter sido um número de agora obscuras “tradições judaicas equiparando os hicsos com os judeus.”[21]

            Expresso de forma mais simples, os judeus foram ofendidos indiretamente por Mâneton por causa que ele apresentou um retrato negativo dos hicsos, quem os judeus tinham, pelo século terceiro a.C., passado a considerar em alguns aspectos como quase ancestrais.

            Enquanto o relato de Mâneton “tinha nada a ver com os judeus e não foi dependente da tradição do Pentateuco,” ele de fato pôs em marcha um relato negativo dos hicsos no Egito[22]. Utilizando antigas listas de reis, a vida último faraó Nectanebo II e a mais antiga Aegyptiaca de Hecateu de Abdera, Mâneton descreveu os hicsos como “invasores de uma raça obscura” que tinha trazido desgraças e pragas em seu rastro após a infiltração deles no Delta.[23] A arqueologia moderna tem sido capaz de determinar que os hicsos eram um povo híbrido combinando linhagens semitas ocidentais (canaanitas), indo-arianas, e asiática ocidental. Independente de se os judeus de Alexandria tinham ligações genéticas significantes com os hicsos, nós sabemos que os últimos foram expelidos do Egito duas vezes e mais tarde se estabeleceram “em Jerusalém e na Judeia geográfica.”[24] Talvez mesmo mais importante é o fato que por mais de dois mil anos os judeus têm tomado o relato de Mâneton como um insulto direto, evidência, se nada mais, da própria crença na em alguma forma de conexão com os hicsos.

            Em relação a Mâneton, os compositores do Êxodo empregaram “um padrão previsível, consistente e sistemático nos pontos de semelhança e contradição violenta.”[25] Ambos relatos apresentam os judeus/hicsus como estrangeiros no Egito que são em alguma forma compelidos a deixarem através das autoridades ou circunstâncias. Ambos relatos localizam a ação na fronteira oriental do Egito. Ambas referenciam o crescimento demográfico e a crescente influência de estrangeiros no Egito, bem como a contemporânea presença de pragas. Gmirkin explica estas similaridades ao assinalar que “os autores da história do Êxodo judaico escolheram as batalhas deles cuidadosamente, aceitando o quadro básico do relato de Mâneton, aceitando quaisquer detalhes que eram considerados inofensivos, mas elevando à defesa dos judeus em cada ponto de honra.”[26] Geralmente falando, “o Pentateuco aceitou tanto quanto possível do relato de Mâneton, devido a autoridade e reputação de Mâneton.”[27] Onde os escritores do relato bíblico necessitaram de corpo para a versão deles com referências à história egípcia, eles parecem ter repetidos erros já presentes em Mâneton, especialmente em relação às seções erradas da lista de antigos reis e crônicas.[28]

            Embora sucessivas gerações de intelectuais judeus tenham tido pontos controversos com antigas alegações egípcias “antissemitas” que os estrangeiros sofreram alguma forma de aflição da pele, e foram em parte exilados por causa dela, o Êxodo e outros livros do Pentateuco mostram óbvias tentativas de esquivar-se de tais inferências.  No Êxodo (4:6-7) Moisés é capaz de transformar sua mão leprosa e curar ela à vontade como um sinal mágico para o Faraó. Em Números (12:10) existe uma estranha história da breve lepra de Miriam, imposta pelo deus hebreu como uma punição por rebelião. Ambos Levítico e Números contém muitas proeminentes leis lidando lepra. O mais condenatório de todos é talvez Deuteronômio (28:60), no qual o deus hebreu adverte os judeus que se eles alguma vez apostarem ele iria “trazer a eles novamente as doenças do Egito.” Há, portanto, clara evidência que os compositores do Êxodo e do Pentateuco adotaram ou no mínimo reconheceram os relatos anteriores do hicsos no Egito nos quais aquela tribo estrangeira tinha sofrido alguma forma de aflição ou doença da pele durante o tempo de permanência deles.

            Pode-se perguntar qual a relevância de tal história tem para o presente. A título de resposta refiro-me às observações feitas no início deste ensaio. O Êxodo permanece um texto essencial no desenvolvimento do cenário mental judaico, moldando ideias sobre identidade, vitimização e validação. Sua recepção precoce tem também vindo a representar, na mente judaica, as origens do “antissemitismo” e o plágio de um putativo gênio judeu. Por causa da influência da cristandade em reter e reforçar o Pentateuco, e mesmo estender ele de alguma maneira na psique ocidental, a história do Êxodo tem sido imerecidamente preservada sob um tipo disfarce de camada arqueológica cultural, congelada e preservada. Nós temos na maior parte perdido o contato com o fato que ela, {a história do Êxodo}, era um ponto no tempo meramente de um repúdio tribal de um consenso esmagador. O historiador   Gohei Hata tem argumentado que na época de Josefo no mínimo sete importantes escritores e intelectuais gregos ou greco-egípcios tinham publicado relatos afirmando que os judeus tinham alguma distante conexão com o Egito, que eles tinham sido banidos, que eles sofreram de uma aflição da pele, e que o próprio Moisés era um apóstata egípcios instável.[29]

            Embora nossas pessoas possam não lembrar destas crônicas, elas são extremamente familiarizadas com os contos de judeus oprimidos que são dados de alimento a elas pelas igrejas delas, e por uma Hollywood que continua a produzir ambos filmes adultos[30] e infantis[31] sobre um “heroico” Moisés despido das qualidades assassinas e psicopatas que encharcam as páginas do Pentateuco. Imagine se elas fossem ao invés confrontadas com o fato que o conto de Moisés familiar elas é ainda mais distante da realidade do que elas poderiam imaginar, escondendo uma mais ainda sinistra história no Egito, revelando ao invés as imaginações psicóticas e febris de uma cabala de rabinos alexandrinos.

            Mesmo se Moisés nunca existiu senão como um tipo de golem espreitando nos recessos psicológicos de intelectuais que o conceberam, ele ainda retém um tipo de “realidade.” E em consideração a isto nós podemos considerar os comentários de Christian Bale, o ator galês escolhido para interpretar Moisés no filme de 2014 Exodus: Gods and Kings. Perguntado sobre o personagem que ele tinha sido convidado a interpretar, em sua própria pesquisa sobre o a figura, Bale respondeu[32] que Moisés “era ‘provavelmente esquizofrênico’ e foi um dos indivíduos mais ‘bárbaros’ que ele tinha jamais lido em sua vida.” Ele citou passagens públicas que não foram incluídas como eventos no filme: o capítulo em Números onde Moisés ordena a matança de todos os prisioneiros de guerra midianitas, salvo as garotas virgens; e a seção do Êxodo na qual Moisés pune os israelitas por adoração ao bezerro de ouro ao forçar eles a beber um líquido escaldante feito do material do ídolo antes de ordenar o abatimento de 3,000 hebreus pela transgressão. Bale encerrou seus comentários ao adicionar que “se Moisés estivesse vivo hoje, ele iria provavelmente ser julgado por crimes de guerra.”





            Questionando-nos entre escolher entre Êxodo e Mâneton, poderíamos lançar nossas mentes de volta a mais que dois milênios de história desde que ambos entraram no cânone ocidental. O êxodo ou a expulsão têm sido mostrado mais claramente na história dos judeus? A historiografia não tem sido gentil com o sacerdote egípcio, mas a história encontra ele vindicado.

Tradução e palavras entre chaves por Tannhauser


Notas


[1] Nota do autor: Paul Johnson, A History of the Jews (London: Weidenfeld & Nicolson, 1987), página 26.

[2] Nota do autor: Ken Frieden, Classic Yiddish Fiction: Abramovitsh, Sholem Aleichem, and Peretz (State University of New York Press, 1995), página77.

[3] Nota do autor: Paul Johnson, A History of the Jews (London: Weidenfeld & Nicolson, 1987), páginas 22 – 23.

[4] Nota do autor: Paul Johnson, A History of the Jews (London: Weidenfeld & Nicolson, 1987), página 23.

[5] Nota do autor: Paul Johnson, A History of the Jews (London: Weidenfeld & Nicolson, 1987), páginas 26.

[6] Nota do autor: Paul Johnson, A History of the Jews (London: Weidenfeld & Nicolson, 1987), páginas 29.

[7] Nota do autor: Robert Wistrich, Antisemitism: The Longest Hatred, (London: Thames Methuen, 1991), página 5.

[8] Nota do autor: Keneth D. Roseman, Of Tribes and Tribulations (Oregon: Wipf & Stock, 2014), página 82.

[9] Nota do autor: Ernest Abel, The Roots of Anti-Semitism (Fairleigh Dickinson University Press, 1974), página 49.

[10] Nota do autor: Jewish Social Studies, Volume 47 (Inverno de 1985), página 2.

[11] Nota do autor: Robert Wistrich, Antisemitism: The Longest Hatred, (London: Thames Methuen, 1991), página 6.

[12] Nota do autor: Robert Wistrich, Antisemitism: The Longest Hatred, (London: Thames Methuen, 1991), página 5.

[13] Nota do autor: Robert Wistrich, Antisemitism: The Longest Hatred, (London: Thames Methuen, 1991), página 5.

[14] Nota do autor: Simon Schama, The Story of the Jews: Finding the Words, 1000 BCE-1492 CE (Ecco, 2014), página 93.

[15] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), páginas 2-3.

[16] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 1.

[17] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 3.

[18] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 3.

[19] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 187.

[20] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 210.

[21] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 210.

[22] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 188.

[23] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 173.

[24] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 187.

[25] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 188.

[26] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 188.

[27] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 188.

[28] Nota do autor: Russell Gmirkin, Berossus and Genesis, Manetho and Exodus: Hellenistic Histories and the Date of the Pentateuch (New York, T & T Clark, 2006), página 211.

[29] Nota do autor: Gohei Hata, ‘The Story of Moses Interpreted within the Context of anti-Semitism,’ in Josephus, Judaism, and Christianity (Brill, 1987), página181.

[30] Fonte utilizada pelo autor: Exodus: Gods and Kings.

[31] Fonte utilizada pelo autor: The Prince of Egypt.

[32] Fonte utilizada pelo autor: “Christian Bale’s Moses in ‘Exodus’: Insecure? Schizophrenic?”, por  Naomi Pfefferman, 11/12/2014, Jewish Journal.




Sobre o autor: Andrew Joyce é o pseudônimo de um acadêmico PhD em História, especializado em filosofia, conflitos étnicos e religiosos, e imigração. Ele compõe o editorial do The Ocidental Quarterly e é contribuinte regular do The Occidental Observer, e assessor do  British Renaissance Policy Institute.

domingo, 8 de janeiro de 2017

O poder judaico é agora lei britânica – é oficial - Por Gilad Atzmon


Gilad Atzmon
13/12/2016

Por ano eu tenho argumentado que o poder judaico é o poder de silenciar o criticismo ao poder judaico. Agora, a primeira-ministra do Reino Unido Theresa May tem confirmado que minha observação está atual.

A primeira-ministra May tem decidido aceitar a definição de antissemitismo da International Holocaust Remembrance Alliance (IHRA) e integrar ela na lei britânica.

De acordo com a IHRA, “antissemitismo é uma certa percepção dos judeus, a qual pode ser expressada como ódio aos judeus. Manifestações retóricas ou físicas de antissemitismo são direcionado frente a indivíduos judeus ou não-judeus e/ou a propriedade deles, frente a instituições da comunidade judaica e instalações religiosas.”

Definição bastante perigosa eu diria. Substitua a palavra “antissemitismo” por “intolerância” e a palavra “judeus” por “um povo” e você conclui com uma definição razoavelmente boa do próprio ódio. Mas nossa Theresa pensa que os judeus merecem uma proteção especial. E por que? Porque embora na Grã-Bretanha, assim como no EUA, Alemanha e França todos são iguais aos olhos da lei, judeus são de alguma forma mais iguais que outros.

Theresa May - Primeira Ministra do Reino Unido - Guardiã dos judeus também

Sir Eric Pickles, enviado do governo para assuntos pós-Holocausto está também comprometido com os judeus e a primazia dos sofrimento deles, tanto que ele tem se transformado em um gigante peixe Gefilte {prato típico da culinária judaica ashkenazi}. Como Pickles disse à BBC, a nova definição “atinge o antissemitismo moderno”. Era, ele disse, “importante não confundir o povo judaico com Israel.”

Eu não poderia concordar mais. Nós devemos nunca confundir judeus com Israel. Primeiro, judeus são pessoas maravilhosamente inocentes, pessoas amantes da paz – exceto talvez os 14 milhões ou mais deles que apoiam Israel e dão a inteira tribo a má reputação – e segundo, seria um absurdo, ignorar os cinco ou mais judeus que se opõem à Israel e verdadeiramente apoiam a Palestina. Talvez Pickles devesse usar sua posição e influência para pressionar o governo israelense a parar de definir Israel como o “Estado judeu” – agora, isso não iria impedir das pessoas de confundir os judeus com o estado deles!

            De acordo com o IHRA, antissemitismo pode incluir negar ao povo judeu o direito de autodeterminação. Novamente, eu não poderia concordar mais. Desde que a Grã-Bretanha apoiou o surgimento do ISIS e armou seus batalhões. É justo também que ela deva apoiar também o Estado exclusivo para judeus. E é nunca é também tarde para a Grã-Bretanha admitir que um Estado exclusivo ario é também uma ideia muito kosher. E sobre um Estado branco? As pessoas brancas não deveriam também ter o direito a autodeterminação? Eu acho que nós devemos ser considerados.

            Não deveria nos surpreender que o homem de princípios Jeremy Corbyn e seu Partido Trabalhista correram para apoiar o movimento de May. Depois de tudo, quem mais que o “homem do povo” Jeremy Corbyn compreenderia a necessidade dos trabalhadores alemães para se ligarem eles próprios às sensibilidades judaicas?

            O {jornal} Jewish Chornicle foi gentil o suficiente para listar o nome dos líderes judaicos que parabenizaram o movimento. Por exemplo, o rabino chefe Ephraim Mirvis saudou a primeira-ministra por seu compromisso em combater o flagelo do antissemitismo e Jonathan Arkush, presidente da Câmara dos Deputados também congratulou a decisão do governo. Eu me pergunto, não existe um líder judeu que possa ver que tal movimento, o que faz os judeus especiais aos olhos da lei, é uma receita para desastre? Será que algum líder judeu realmente acredite que uma tal lei faz os judeus britânicos amados ou respeitados?

            A história judaica prova o oposto. É sempre o excepcionalismo judaico que evolui em desastre judaico.

Tradução e palavras entre chaves por Tannhauser




Gilad Atzmon é um artista e compositor de jazz, nascido em Israel em 1963, formado na Academia Rubin de Jerusalém (Composição e Jazz). Um multi-instrumentista ele toca saxofone, clarinete e instrumentos de sopro variados.

            Gilad Atzmon escreve sobre assuntos políticos, sociais, identidade e cultura judaica. Seus artigos são publicados em muitos canais de comunicação, entre os principais estão:   World News, Press Tv, Rebelion, The Daily Telegraph, Uprooted Palestinians, Veterans Today, Palestine Telegraph, Counterpunch, Dissident Voice, Aljazeera Magazine,   Information Clearing House,   Middle-East-Online,   Palestine Chronicle, The People Voice, Redress, Shoa (The Palestinian Holocaust) , The Guardian, transcend.      
     

               Gilad Atzmon é um popular analista político e é frequentemente visita em estações de rádio e televisão no mundo tal como a Rt.Press TV, BBC e muitas outras.

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Relacionado, leia também:


sábado, 31 de dezembro de 2016

FMI admite não ver saída para a crise global. Michael Hudson explica: peso dos juros paralisa economias, exaure sociedades e amplia riscos de retrocesso


Michael Hudson
O relatório sobre estabilidade financeira do FMI diz que, apesar de os bancos serem mais fortes agora do que na crise econômica de 2007-2008, cerca de 25% do bancos norte-americanos e 30% dos europeus estão muito fracos até mesmo para se beneficiarem de possível aumento nas taxas de juros — ou de qualquer auxílio para recuperação, caso a economia global sofra um novo abalo. Mas antes de entrar em qualquer tema mais específico sobre a saúde dos bancos, pergunto: nestas duas regiões, ainda estamos em recessão ou começamos a nos recuperar?

Não estamos nem numa recuperação, nem numa recessão tradicional. As pessoas pensam nos ciclos econômicos, nos quais há um boom seguido por uma recessão, para que depois os estabilizadores automáticos reanimem a economia. Mas agora, não há reanimação possível. A razão é que cada recuperação, desde 1945, estabeleceu um alto nível de endividamento. Ele está tão alto agora que estamos vivendo, desde a crise de 2008, o que chamo de deflação por dívida. As pessoas têm de pagar tanto dinheiro aos bancos que não conseguem manter o suficiente para comprar os bens e serviços produzidos. Por isso, não há novos investimentos, nem geração de emprego (exceto empregos com salários-mínimos). Os mercados estão encolhendo e as famílias estão quebrando. Por isso, muitas empresas não podem pagar os bancos.

O produto dos bancos é dívida. Eles tentam dizer aos clientes que “as dívidas são boas”, mas os clientes não podem endividar-se mais, e não há mais caminhos para que os bancos continuem seu atual plano de negócios. Na verdade, não há como os bancos serem pagos por tudo que possuem. É desse ponto que o FMI não passa. Ele não se atreve a dizer: “Os bancos estão quebrados porque o sistema financeiro também quebrou; e se isso ocorreu é porque, em seu conjunto, a ideia de tentar se enriquecer através das dívidas não funciona”.

Era um modelo falso. Estamos no final do longo ciclo que começou em 1945 e sobrecarregou as economias com dívidas. Não teremos condições de sair do labirinto até que estas sejam canceladas. Mas é isso que o FMI acredita ser impensável. Não pode dizer isso, porque espera-se que represente o interesse dos bancos. Tudo que o pode dizer é que os bancos não farão mais dinheiro, mesmo que haja recuperação.

Mas na verdade não há recuperação, e não há sinais disso no horizonte, porque as pessoas têm de pagar aos bancos. É um ciclo vicioso – ou melhor, uma espiral descendente. Basicamente, os economistas do FMI estão entregando os pontos e admitindo que não sabem o que fazer, dados os limites de seu horizonte.

Você pode nos ajudar a compreender por que o crescimento foi tão fraco nos últimos seis a oito anos?

Vamos analisar um orçamento familiar médio, estudando seus números essenciais. As pessoas pagam entre 40% a 43% de sua renda para habitação. Pagam planos de saúde, as dívidas do cartão de crédito, outros débitos. Sobram, disponíveis, apenas 25% a 35% — digamos, um terço do salário — para adquirir bens e serviços.

O problema é que quem emprega são justamente empresas que vendem bens e serviços. Elas simplesmente não estão contratando, porque os consumidores não têm dinheiro disponível para comprar esses mesmo bens e serviços. Entramos numa deflação crônica por dívida. Não há recuperação possível sem levar isso em conta. É este fato que o FMI compreendeu, mas deixa apenas implícito em seu relatório.

Ao noticiar este relatório, em manchete, o site MarketWatch afirmou: “Esqueça o [conceito de] ‘grandes demais para falir’. Os bancos estão fracos demais para sobreviver”. Na época em que eram gigantes, os bancos quase destruíram o sistema financeiro global. Bancos menores são melhores?

Pequenos bancos voltados para empréstimos ao público seriam bons. Mas os bancos, em sua maioria – o  Deutsch Bank, em graves dificuldades, é um caso típico – avaliam que não são mais capazes de ganhar dinheiro emprestando aos clientes normais. Partiram para um novo plano de negócios: emprestar dinheiro a capitalistas de cassino. Isso é, emprestar para quem quer especular com derivativos.

Um derivativo é simplesmente uma aposta de que uma ação, um título de dívida ou relacionado a um ativo imobiliário irá subir ou cair. Há um vencedor e um perdedor. É como aposta numa corrida de cavalos. O maior banco envolvido nestas apostas — ou seja, não em financiar a produção, ou o investimento — era o Detsche Bank. Grandes aplicadores tomavam emprestado para jogar.

Qual é, hoje a melhor aposta no mundo? É apostar que as ações do Deutsche Bank irão cair. Especuladores tomam dinheiro emprestado dos seus bancos para fazer apostas de que as ações do Deutsche Bank despencarão. Agora, ele se contorce e diz: “Oh, os especuladores estão nos matando”. Mas são o próprio Deutsche Bank e outros que fornecem dinheiro para os especuladores fazerem apostas.

O relatório do FMI diz que, na zona do euro, se os governos pudessem ajudar os bancos a se livrar de seus empréstimos ruins, isso teria um efeito positivo sobre o capital destas instituições financeiras. Qual seria o efeito sobre a população e a economia europeia?

A matemática desta proposta muito simples. Para executá-la, você teria de abolir as aposentadorias e os gastos sociais — além de aumentar os impostos. Você tem que obrigar pelo menos 50% da população europeia a emigrar — quem sabe, para a Rússia ou China… Haveria fome em massa. Muito simples: esse é o preço que alguns, na zona do euro, pensam que vale a pena pagar — e que se tentou impor à Grécia. Para salvar os bancos, você teria que converter toda a zona do euro numa Grécia.

Os governos teriam de vender todo o setor público — inclusive ferrovias e terras públicas. Estaríamos basicamente introduzindo o neo-feudalismo, voltando o relógio da história para trás em mil  anos e reduzindo a população da Europa para dívidas escravocratas. É a solução que a zona do euro impôs a Grécia. E a solução que os líderes e os bancos estão  pedindo para os economistas responsáveis promoverem à população em geral.

Vamos falar a respeito de outra informação divulgada pelo FMI sobre a dívida. O endividamento global chegou recentemente a cerca de 152 trilhões de dólares. Isso inclui dívidas públicas, familiares e de empresas não financeiras. O que isso significa para o sistema financeiro global e as sociedades?

Significa que a única maneira que as pessoas têm de pagar a dívida é cortando seus padrões de vida drasticamente. Significa concordar em mudar suas aposentadorias atuais — em que você sabe quanto receberá ao deixar de trabalhar — para “planos de contribuição definida”. Nestes você investe o dinheiro e não sabe o que receberá.

Para salvar os bancos de perdas que ameaçam varrer seu patrimônio líquido, teríamos de nos livrar da Seguridade Social. Isso significa basicamente abolir o governo para entregar o funcionamento do sistema aos bancos, com a ideia de que o papel dos governos é extrair renda da economia para pagar os acionistas e os bancos.

Quando se diz “pagar os bancos”, o que eles realmente querem dizer é pagar os detentores de títulos bancários. São basicamente o 1% mais rico. O que estamos vendo realmente neste relatório, neste crescimento de dívida, é que o 1% da população detêm aproximadamente 3/4 de todos os créditos. Significa que há uma escolha: ou você salva a economia, ou você salva o 1% de perder um único centavo.

Todos os governos, de Barack Obama até Angela Merkel, da zona do euro ao FMI, comprometem-se a salvar os bancos, não a economia. Nenhum preço é muito alto para tentar fazer o sistema financeiro ir um pouco mais longe. Ao final das contas, ele não poderá ser salvo, por causa da equação em que está envolvido. As dívidas crescem sem parar. E quanto mais crescem, mais encolhem a economia. Quando você encolhe a economia, reduz a capacidade de pagar as dívidas. É uma ilusão pensar que o sistema pode ser salvo. A questão é: por quanto tempo mais as pessoas estarão dispostas a viver nesta ilusão?

E por quanto tempo essa ilusão se sustenta antes de assistirmos a um novo colapso econômico mundial? É algo inevitável, a que devemos simplesmente esperar? Devemos nos preparar para isso?

Ainda estamos sofrendo os efeitos do colapso que começou em 2008. Não há novo colapso, nem recuperação. Os salários dos 99% caíram, de forma constante, desde 2008. Especialmente para 25% da população que ganham menos — nos Estados Unidos, negros,  latino-americanos e outros trabalhadores. O patrimônio líquido deles ficou negativo, e eles não têm dinheiro suficiente para pagar as contas.

Uma das maiores consultorias mundiais — a Ernst & Young — acaba de fazer o estudo sobre os muito jovens. Descobriu que 78% das pessoas que nasceram por volta da virada do século [e que têm em torno de 18 anos]  estão preocupados por imaginarem que não encontrarão empregos que lhes permitam pagar seus  empréstimos estudantis. Além disso, 74% temem não poder pagar tratamento, se ficarem doentes; 79% temem ficar sem renda suficiente para viver, quando eles se aposentarem. Toda uma geração que emerge — não apenas nos EUA, mas também na Europa — que não será capaz de ter empregos assalariados que paguem bem. O único caminho é ter pais ricos o suficiente para lhes oferecer uma renda.

Seu último livro é Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Bondage Destroy the Global Economy [“Matando o hospedeiro: como os parasitas financeiros e a escravidão por dívidas destroem a Economia Global”]. Você está terminando outro, certo?

Sim, nas próximas semanas. Seu título será J is for Junk Economics. Investiga por que os economistas prometem que em algum momento haverá uma recuperação. Por que isso é basicamente uma promessa impagável [junk] e por que hoje, para ser um economista, você tem que participar desse conto de fadas segundo o qual poderemos nos recuperar e, ao mesmo tempo, conservar a saúde dos bancos. Quero mostrar por que não funciona.

Tradução por Cauê Seignemartin Ameni




Sobre Michael Hudson: (1939 – ) é um professor e pesquisador de economia na Universidade de Missouri–Kansas City (UMKC) e um pesquisador associado do Bard College. Ele é um ex-analista de Wall Street e consultor bem como presidente do “Instituto para o Estudo de Tendências Econômicas de Longo Termo” (Institute for the Study of Long-term Economic Trends - ISLET) e um membro-fundador da “Conferência Internacional de Pesquisadores de Economias do Antigo Oriente Próximo” (International Scholars Conference on Ancient Near Eastern Economies - (ISCANEE). Presta serviços de consultoria financeira para os governos da Grécia, Islândia, Letônia e China. Graduado na University of Chicago B.A. em 1959 (Filologia e História), na New York University em 1963 (mestrado em Economia) e em 1968 (Ph. D em Economia, tese sobre o Banco Mundial).

Entre suas obras principais estão: Killing the Host (2015), The Bubble and Beyond (2012), Super-Imperialism: The Economic Strategy of American Empire (1968 & 2003), Trade, Development and Foreign Debt (1992 & 2009), e The Myth of Aid (1971).
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